Ação inédita percorreu dez bairros e terminou com 10 acolhimentos; cidade tinha mais de 500 pessoas em situação de rua nos últimos levantamentos
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| Foto/Divulgação |
A Prefeitura de Blumenau mudou a estratégia de abordagem à população em situação de rua e passou a intensificar também durante o dia o trabalho que, até então, tinha forte concentração nas operações noturnas. A mudança busca alcançar pessoas que não são encontradas durante a madrugada e ampliar o número de encaminhamentos para a rede de assistência social.
Nesta quarta-feira, dia 29, uma operação integrada percorreu os bairros Garcia, Itoupava Seca, Fortaleza, Itoupava Norte, Itoupavazinha, Velha, Victor Konder, Ponta Aguda, Vorstadt e Centro. Ao longo do dia, 10 pessoas foram acolhidas, além de outros encaminhamentos realizados pelas equipes.
A operação reuniu a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Semudes), Polícia Militar, Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) e outros órgãos parceiros.
Mudança de estratégia
A principal novidade está justamente no horário das abordagens. Em vez de concentrar a busca apenas durante a madrugada, as equipes passaram a atuar também em horário comercial e durante o dia, quando parte das pessoas em situação de rua está circulando por diferentes regiões da cidade.
Segundo a Prefeitura, a estratégia permite localizar pessoas que não foram encontradas nas ações noturnas e acompanhar casos já conhecidos pela rede de proteção.
“Nosso trabalho não acontece apenas durante a noite. As equipes estão diariamente nas ruas, construindo vínculos, oferecendo acolhimento e buscando novas oportunidades para que essas pessoas deixem a situação de rua”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Social, Rafael Burgonovo.
Para o secretário, cada abordagem representa uma possibilidade de mudança de trajetória.
Mais de 500 pessoas no radar
O problema está longe de ser pequeno em Blumenau.
Um levantamento divulgado em 2025 apontou 501 pessoas em situação de rua cadastradas no Cadastro Único, das quais 155 estavam em acolhimento.
Outro levantamento, realizado pelo Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) com dados até março de 2025, contabilizou 494 pessoas em situação de rua em Blumenau. A cidade aparecia como a quarta de Santa Catarina com maior número absoluto, atrás de Florianópolis, Joinville e Itajaí.
Já um informe técnico do Conselho Nacional do Ministério Público, com dados de dezembro de 2025, registrou 536 pessoas em situação de rua em Blumenau.
Os números mostram que o fenômeno permanece como um dos principais desafios sociais do município.
Quantas pessoas já deixaram as ruas?
Esse é um dos pontos mais difíceis de dimensionar.
A Prefeitura não divulga um balanço único e atualizado informando quantas pessoas foram efetivamente retiradas da situação de rua desde o início das ações. Os registros oficiais apresentam acolhimentos, atendimentos, encaminhamentos, tratamentos, retornos familiares e outros tipos de intervenção, mas esses números não podem ser simplesmente somados como se representassem pessoas que definitivamente deixaram as ruas.
O próprio histórico da rede mostra a complexidade do problema. Há pessoas que acumulam centenas de atendimentos e passam repetidamente por acolhimentos, abordagens e tentativas de tratamento.
Em um dos casos divulgados pela Prefeitura, uma mulher acompanhada pela rede desde 2015 acumulava 1.058 atendimentos na assistência social e outros 207 no CapsAD antes de uma internação involuntária.
Internação involuntária virou último recurso
Outro ponto que ganhou espaço na política municipal é o uso, em situações extremas, da internação involuntária.
Pelo histórico divulgado oficialmente pela Prefeitura, ao menos 10 internações involuntárias foram realizadas desde a implantação dessa medida no município. Em maio de 2025, a administração informou que havia chegado à oitava internação. Depois disso, foram divulgadas novas internações em abril e julho de 2026.
A medida, porém, não é apresentada pelo município como uma ação de retirada das ruas. Ela é adotada como último recurso, depois de tentativas de tratamento voluntário e outras alternativas da rede psicossocial.
A Prefeitura informa que a internação involuntária depende de avaliação médica, ocorre em ambiente hospitalar e deve respeitar a legislação.
Um dos casos mais recentes ocorreu em 8 de julho. Um homem de 50 anos, em situação de rua e com dependência química, foi internado após receber 738 atendimentos das equipes e depois do esgotamento das tentativas de adesão voluntária ao tratamento.
Problema que vai além da segurança
A situação de rua em Blumenau não pode ser explicada apenas pela presença de pessoas dormindo em calçadas ou ocupando espaços públicos. O levantamento do MPSC aponta entre os principais fatores relacionados à situação de rua questões como desemprego, alcoolismo, uso de drogas e conflitos familiares.
Por isso, a estratégia adotada pelo município envolve não apenas abordagem e segurança, mas também acolhimento, saúde, tratamento, documentação, reinserção no mercado de trabalho, retorno familiar e encaminhamentos para serviços especializados.
Atualmente, Blumenau mantém Abordagem Social 24 horas, acolhimento institucional em parceria com organizações da sociedade civil e atendimento no Centro POP, além de encaminhamentos para tratamento e reinserção social.
O prefeito Egidio Ferrari defende a integração das diferentes áreas.
“Cuidar das pessoas também significa cuidar da cidade”, afirmou. Segundo ele, a união entre acolhimento, tratamento, oportunidades e segurança busca garantir mais dignidade às pessoas em situação de rua e melhorar a qualidade de vida da população.
Trabalho agora é de dia e de noite
A mudança de estratégia deixa claro que a Prefeitura pretende transformar as operações pontuais em um trabalho permanente de busca ativa.
A lógica é simples: se parte das pessoas não é encontrada durante a madrugada, as equipes vão atrás delas também durante o dia.
O desafio, entretanto, permanece enorme. Mais de 500 pessoas aparecem nos levantamentos recentes, enquanto os atendimentos individuais revelam casos de dependência química, problemas de saúde e rompimento de vínculos que podem exigir meses ou até anos de acompanhamento.
A população pode acionar a Abordagem Social pelo telefone 156, opção 2, 24 horas por dia. A orientação é permitir que profissionais especializados façam a abordagem e indiquem o atendimento adequado para cada situação.
