Tragédia no Nepal deixa mortos e centenas desaparecidos após colapso de geleira

Deslizamento de gelo e rochas provocou uma onda de água, lama e detritos na fronteira entre Nepal e Tibete; fenômeno não foi causado diretamente por terremoto, segundo análises sísmicas

Foto/Redes Sociais/Divulgação

Uma tragédia de grandes proporções no Himalaia deixou pelo menos 157 mortos no Nepal e três na região do Tibete, na China, após uma gigantesca massa de gelo e rochas desabar de uma geleira e provocar uma inundação repentina, com enorme quantidade de lama e detritos.

O desastre atingiu principalmente o distrito de Rasuwa, no Nepal, e a região de Gyirong, no Tibete. Casas, estradas, pontes, veículos e estruturas de infraestrutura foram destruídos pela força da água e dos sedimentos.

Como a tragédia começou

As primeiras informações apontavam para um terremoto como possível responsável pelo rompimento da geleira. No entanto, análises posteriores do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) indicaram que não houve um terremoto antes da inundação.

O sinal sísmico registrado inicialmente como um tremor de magnitude 4,4 teria sido, na realidade, produzido pelo próprio deslizamento de gelo e rochas. O evento foi posteriormente associado a uma movimentação equivalente a aproximadamente magnitude 5,2.

Imagens de satélite indicam que uma grande parte da porção inferior de uma geleira localizada a cerca de 5.200 metros de altitude se desprendeu e despencou aproximadamente 1.200 metros até o fundo do vale.

Durante a queda, o gelo incorporou rochas, terra e sedimentos. A massa atingiu o rio Lhende, no Tibete, provocando um bloqueio temporário do curso d'água. Quando essa barreira natural cedeu, uma enorme quantidade de água e detritos avançou rapidamente pelo vale.

O resultado foi uma inundação repentina e extremamente destrutiva, que atingiu comunidades situadas rio abaixo.

Por que uma geleira pode provocar uma inundação desse tamanho?

O Himalaia possui enormes quantidades de gelo, neve e água armazenada em áreas de alta montanha. Quando uma massa de gelo ou rocha se desprende, ela pode bloquear temporariamente um rio.

Esse bloqueio funciona como uma espécie de barragem natural.

Se a barreira se rompe, toda a água acumulada pode ser liberada de uma só vez. Quando isso ocorre em um vale estreito e muito inclinado, a água ganha enorme velocidade e carrega consigo lama, pedras, gelo e árvores, formando uma espécie de avalanche líquida.

É justamente essa combinação que torna as chamadas inundações de ruptura de lagos ou bloqueios glaciais particularmente perigosas.

O El Niño tem relação com a tragédia?

Pode haver uma relação indireta, mas não é correto afirmar que o El Niño causou o desastre.

O El Niño está atualmente em fortalecimento. Segundo a NOAA, há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte durante o outono e inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.

O fenômeno altera os padrões de temperatura, circulação atmosférica e precipitação em diferentes partes do planeta. A Organização Meteorológica Mundial também alerta que o El Niño pode aumentar a ocorrência de padrões extremos de chuva e temperatura em algumas regiões.

Entretanto, os especialistas que analisam a tragédia no Nepal apontam principalmente para o colapso da geleira e a dinâmica das montanhas como fatores imediatos.

Há ainda um fator de longo prazo considerado preocupante: o aquecimento global.

O aumento das temperaturas está acelerando o derretimento das geleiras e pode contribuir para deixar determinadas áreas de alta montanha mais instáveis. Pesquisadores ressaltam que o aquecimento pode aumentar a probabilidade de eventos envolvendo desprendimento de gelo, rochas, lagos glaciais e deslizamentos.

Portanto, a relação pode ser entendida desta maneira:

El Niño → altera padrões climáticos → pode influenciar temperatura e precipitação.

Aquecimento global → acelera o derretimento e pode aumentar a instabilidade de geleiras e encostas.

Colapso da geleira → desencadeia a avalanche de gelo e rochas → bloqueia o rio → provoca a inundação devastadora.

Não há, porém, evidência suficiente para dizer que o El Niño foi a causa direta da tragédia de 26 de agosto.

Centenas de pessoas continuam desaparecidas

O desastre também atingiu uma região frequentada por turistas, peregrinos e montanhistas.

Mais de 400 turistas chegaram a ser considerados desaparecidos no Nepal, incluindo centenas de estrangeiros. Entre os desaparecidos estavam cidadãos da Índia, Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, entre outros países.

Do lado chinês, autoridades registraram centenas de pessoas sem localização na região de Gyirong, enquanto equipes de emergência enfrentavam dificuldades para chegar às áreas atingidas.

Itamaraty acompanha situação de brasileiros

O Ministério das Relações Exteriores informou que acompanha os desdobramentos da tragédia por meio das representações brasileiras em Katmandu e Pequim.

Segundo o Itamaraty, não havia, até o momento, registro de brasileiros entre os mortos ou desaparecidos.

Brasileiros em situação de emergência no Nepal podem procurar o plantão consular em Katmandu. Quem estiver na região do Tibete deve entrar em contato com o plantão consular da representação brasileira em Pequim.

O governo brasileiro também disponibilizou o telefone de plantão geral em Brasília: (61) 98260-0610.

Resgates continuam

As equipes de emergência permanecem mobilizadas para localizar desaparecidos, retirar sobreviventes e identificar as vítimas.

A destruição de estradas, pontes, redes elétricas e sistemas de comunicação dificulta o acesso às áreas mais afetadas. Também existe preocupação com a possibilidade de novos bloqueios de rios e consequentes inundações secundárias.

A tragédia expõe novamente a vulnerabilidade das comunidades do Himalaia diante de eventos extremos envolvendo geleiras, rios e encostas — e reforça o alerta de especialistas de que o aquecimento das regiões de alta montanha pode tornar esses eventos cada vez mais perigosos.

José Carlos Goes

Sou locutor. Atuei em várias emissoras de rádio em Blumenau por quatro décadas. Atualmente trabalho na Massa FM de Blumenau e mantenho esse blog. Sou jornalista. Trabalhei em vários jornais impressos. Sou blogueiro.

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