A Terra é linda da Lua. O horror começa quando o homem entra em cena

Terra vista da Lua e guerra no mundo expõem o maior paradoxo da humanidade. Foto/Divulgação

Imagens do planeta azul vistas do espaço contrastam com a devastação da guerra e escancaram a falência moral da humanidade

Por José Carlos Goes

Enquanto astronautas registram a beleza da Terra em missões rumo à órbita da Lua, a superfície do planeta continua marcada por bombas, ruínas e mortes. O contraste entre essas duas imagens expõe o paradoxo mais brutal do nosso tempo: a humanidade alcançou o espaço, mas ainda fracassa em viver em paz dentro da própria casa.


Do espaço, a Terra parece perfeita.

Aqui embaixo, ela arde.

Lá de cima, o planeta azul surge como uma esfera silenciosa, inteira, quase sagrada. Mas basta voltar os olhos para a superfície para encontrar o oposto dessa beleza: cidades destruídas, crianças sob escombros, céus riscados por mísseis e a insanidade humana transformando vida em alvo.

O mesmo mundo que emociona astronautas em viagem rumo à órbita da Lua continua sendo, na Terra, o cenário da mais antiga tragédia da civilização: o homem ainda mata o próprio irmão em nome do poder.


Do lado de fora, a Terra ainda parece inocente

Há imagens que não servem apenas para emocionar.

Servem para constranger.

As recentes fotografias da Terra captadas por astronautas em missão rumo à órbita da Lua não mostram apenas um planeta bonito. Mostram um planeta traído.

Lá de cima, não há fronteiras.

Não há ruínas.

Não há sirenes.

Não há a fumaça espessa das cidades atingidas pela guerra.

Não há a brutalidade dos homens travestida de estratégia.

Do lado de fora, a Terra continua parecendo pura.

E talvez seja justamente isso o que mais dói.

Porque ela segue linda o suficiente para nos lembrar, com uma delicadeza quase cruel, do que temos feito sobre ela.


A beleza da Terra torna a guerra ainda mais obscena

Vista do espaço, a Terra não consola.

Ela acusa.

Porque sua beleza não suaviza a barbárie.

Ao contrário: ela a expõe com ainda mais violência.

Cada míssil lançado sobre a superfície do planeta se torna ainda mais absurdo quando lembramos que ele cai justamente sobre um mundo que, do espaço, parece um milagre.

Cada explosão parece ainda mais grotesca quando colocada diante da imagem de uma Terra azul, inteira, silenciosa, flutuando na escuridão como uma joia viva.

A guerra já é horror por si só.

Mas ela se torna ainda mais insuportável quando confrontada com a lembrança de que acontece em um dos lugares mais extraordinários do universo conhecido.


O homem chegou perto da Lua, mas continua longe da própria humanidade

Talvez nenhuma frase resuma tão bem o nosso tempo quanto esta:

O homem aprendeu a sair da Terra antes de aprender a merecê-la.

Construímos foguetes.

Mapeamos galáxias.

Planejamos Marte.

Mas seguimos fracassando no mais elementar de todos os testes civilizatórios: a capacidade de coexistir sem destruir.

O século XXI é brilhante em tecnologia e, ao mesmo tempo, profundamente perturbador em sua falência moral.

Nunca tivemos tanto conhecimento.

Nunca produzimos tanta ciência.

Nunca dominamos tantos recursos.

E, ainda assim, seguimos repetindo o gesto mais primitivo da história humana: eliminar o outro para afirmar poder.

A espécie que sonha em conquistar outros mundos ainda não conseguiu pacificar este.


A guerra é a inteligência humana em estado de decomposição moral

Existe um erro confortável em imaginar que a guerra seja apenas atraso.

Ela é pior do que isso.

A guerra moderna é a inteligência humana corrompida.

Ela não nasce da ausência de capacidade.

Ela nasce da capacidade sequestrada pela ambição, pelo fanatismo, pela sede de domínio e pela desumanização.

Há ciência na guerra.

Há cálculo na guerra.

Há sofisticação na guerra.

Há logística na guerra.

Mas há, acima de tudo, falência ética.

O mesmo cérebro que leva o homem ao espaço é capaz de criar a máquina que pulveriza outro homem no chão.

E esse talvez seja o maior escândalo da nossa espécie:

não somos violentos porque ainda somos primitivos. Somos violentos apesar de tudo o que já sabemos.


Do espaço, não existem fronteiras. Aqui embaixo, elas continuam exigindo sangue

Talvez uma das maiores humilhações da condição humana esteja justamente nisso: nenhuma das linhas pelas quais homens seguem morrendo aparece quando a Terra é vista do lado de fora.

Nenhum astronauta vê nacionalismo.

Nenhum satélite vê fanatismo.

Nenhuma câmera orbital vê disputas territoriais.

Tudo isso desaparece.

Tudo isso encolhe.

Tudo isso revela o que realmente é: uma construção humana pela qual seres humanos reais continuam morrendo.

Do espaço, a Terra parece uma só.

Uma casa só.

Uma fragilidade só.

Uma vida só.

Mas aqui embaixo seguimos agindo como se mapas fossem mais importantes do que pessoas.

Como se domínio fosse mais urgente do que compaixão.

Como se vencer valesse mais do que preservar a vida.


O pior da guerra é quando ela deixa de chocar

Toda barbárie se torna ainda mais perigosa quando começa a parecer normal.

E esse é um dos sintomas mais sombrios do nosso tempo.

A guerra vai sendo incorporada ao cotidiano.

As imagens passam pela tela.

Os mortos viram números.

Os escombros viram cenário.

As lágrimas viram estatística.

E o horror vai sendo engolido pela velocidade do mundo.

Isso é devastador.

Porque a guerra não destrói apenas cidades.

Ela também destrói a capacidade humana de se horrorizar.

E quando uma sociedade perde a capacidade de sentir espanto diante da barbárie, ela já começou a apodrecer por dentro.


A Terra não precisa ser salva do universo. Precisa ser salva do homem

Talvez a pergunta mais importante da nossa época seja brutalmente simples:

O que estamos fazendo com este planeta?

O que estamos fazendo com essa beleza?

O que estamos fazendo com essa casa?

O que estamos fazendo uns com os outros?

A Terra não fabrica mísseis.

Os oceanos não cultivam ódio.

As montanhas não decretam vingança.

As nuvens não lançam bombas.

O planeta não é cruel.

Cruel é o homem quando perde a medida da própria humanidade.

E a guerra, no fundo, é isso:

o homem sem limite.

Sem compaixão.

Sem freio.

Sem espelho.

Sem memória.

Sem a capacidade de reconhecer que a vida do outro também é sagrada.


A maior viagem da humanidade ainda não foi feita

Chegar à Lua é monumental.

Ir a Marte será histórico.

Mas talvez a maior travessia da humanidade ainda não seja espacial.

Talvez ela ainda seja moral.

Porque nenhuma conquista tecnológica será grandiosa o suficiente para absolver uma espécie que continua fracassando no mais elementar de todos os mandamentos civilizatórios: não destruir a vida.

O verdadeiro salto da humanidade não será aquele que a levará mais longe da Terra.

Será aquele que finalmente a tornará digna de permanecer nela.


A Terra vista da Lua é uma revelação.

A guerra, uma confissão.

A primeira mostra a beleza do mundo que recebemos.

A segunda revela a brutalidade do mundo que insistimos em produzir.

E talvez não exista retrato mais honesto da condição humana do que este:

somos capazes de contemplar o sublime e, ainda assim, continuar escolhendo o horror

José Carlos Goes

Sou locutor. Atuei em várias emissoras de rádio em Blumenau por quatro décadas. Atualmente trabalho na Massa FM de Blumenau e mantenho esse blog. Sou jornalista. Trabalhei em vários jornais impressos. Sou blogueiro.

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