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| Foto/Malu/Divulgação |
Prefeito diz que problema no abastecimento de água é herança de anos de omissão; cidade volta a discutir promessa histórica de modernização do sistema
BLUMENAU — Em meio a episódios que atingem atualmente moradores de diferentes regiões da cidade, o prefeito de Blumenau, Egídio Ferrari (PL), afirmou que o problema no sistema de abastecimento de água é consequência direta de anos de falta de investimentos estruturais no Samae. Em entrevista ao programa Microfone Aberto, da Rádio Massa FM Blumenau, o chefe do Executivo declarou que sua gestão está realizando os maiores aportes recentes para tentar recuperar a capacidade operacional da rede e reduzir a recorrência da falta d’água.
A fala reacende um debate antigo em Blumenau: por que uma das maiores cidades de Santa Catarina ainda convive com interrupções frequentes no abastecimento, mesmo após décadas de promessas, obras pontuais e sucessivas administrações? A resposta passa por uma combinação de crescimento urbano, dependência de estruturas antigas, gargalos históricos na captação e distribuição e, agora, uma corrida da atual gestão para entregar resultados antes que a crise se agrave ainda mais.
O que Egídio Ferrari diz que sua gestão está fazendo hoje no Samae
Segundo o prefeito, a atual administração tenta atacar justamente os pontos mais frágeis do sistema: captação, tratamento, reservação e distribuição. Na prática, a Prefeitura e o Samae vêm apostando em uma série de intervenções para aumentar a segurança operacional da cidade, sobretudo em períodos de maior consumo e em momentos de instabilidade climática.
Entre as principais ações em andamento ou executadas recentemente estão:
1. Nova captação de água para a ETA 2
Considerada a obra mais estratégica em curso, a nova estrutura de captação de água bruta para a ETA 2, no bairro Do Salto, é tratada pelo Samae como o maior investimento da história da autarquia. O projeto está orçado em R$ 47,2 milhões e pretende substituir a captação atual junto à Usina do Salto, reduzindo vulnerabilidades operacionais e aumentando a eficiência do sistema. A expectativa divulgada pelo Samae é de que a obra fortaleça a autonomia da cidade no abastecimento.
2. Reforço da ETA 2, responsável por cerca de 70% do abastecimento
A ETA 2, espinha dorsal do sistema de água de Blumenau, recebeu melhorias em seus tanques de decantação e no sistema de filtragem. Segundo dados oficiais, as intervenções contribuíram para ampliar a produção de água tratada e reduzir paradas para limpeza, um dos gargalos históricos da estrutura.
3. Obras e modernização da ETA 3
Outra frente importante envolve a ETA 3, que atende bairros das regiões Sul e parte da área central. A estação passou por obras nos filtros e recebeu reforços operacionais, inclusive com bombeamento para apoiar outros setores da cidade. A meta é aliviar a pressão sobre a ETA 2 e tornar o sistema menos dependente de um único eixo de produção.
4. Ampliação e renovação da rede de distribuição
O Samae também informou a instalação de mais de 15 quilômetros de novas tubulações em 2025, distribuídas em diversos bairros. A troca de redes antigas e o aumento do diâmetro de determinados trechos buscam reduzir perdas, melhorar pressão e evitar rompimentos, uma reclamação constante em várias regiões da cidade.
5. Reforma de reservatórios antigos
Além de expandir o sistema, a atual gestão afirma estar recuperando estruturas históricas. Um exemplo é a reforma do reservatório R1-A, construído na década de 1970 e responsável por atender dezenas de milhares de imóveis. A lógica é simples: sem reservação confiável, qualquer falha operacional rapidamente se transforma em desabastecimento em massa.
6. Combate a perdas e fraudes
Outro eixo citado pelo Samae envolve o enfrentamento às ligações irregulares, os chamados “gatos”, que impactam diretamente a pressão e o equilíbrio da rede. Em 2025, a autarquia intensificou as fiscalizações e notificações, argumentando que o desperdício e o consumo irregular também pressionam o sistema.
O problema é de hoje — mas começou há décadas
Apesar do discurso de reconstrução, a crise da água em Blumenau não nasceu agora. Ela é resultado de um sistema que, historicamente, cresceu em velocidade inferior à expansão urbana e ao aumento da demanda da cidade.
O marco dos anos 1990
Nos anos 1990, durante a administração do ex-prefeito Victor Fernando Sasse, Blumenau viveu um dos ciclos mais lembrados de investimento em infraestrutura hídrica. Naquele período, o município ampliou a capacidade do sistema e consolidou estruturas que por muitos anos sustentaram o abastecimento da cidade.
O problema é que boa parte desse parque operacional, embora importante para a época, envelheceu. Reservatórios, redes, equipamentos de bombeamento e a própria lógica de distribuição passaram a exigir modernizações mais profundas, enquanto Blumenau continuava crescendo, verticalizando bairros e aumentando o consumo.
Em outras palavras: o sistema que foi robusto há 30 anos deixou de acompanhar a complexidade da Blumenau de hoje.
Da expansão pontual à falta de solução definitiva
Ao longo das últimas décadas, Blumenau recebeu obras importantes, mas frequentemente insuficientes para resolver o problema de forma estrutural.
Entre elas, estiveram:
- ampliações e manutenções da ETA 2;
- melhorias operacionais na ETA 3;
- instalação de uma ETA compacta para reforçar a produção;
- construção e interligação de reservatórios;
- trocas de redes em bairros críticos;
- intervenções emergenciais em períodos de estiagem, enchentes ou alta turbidez do rio.
O ponto central, no entanto, é que essas ações, em muitos momentos, funcionaram mais como contenção de crise do que como solução definitiva. Sempre que a cidade enfrenta um pico de consumo, uma manutenção delicada, um evento climático ou falhas em estruturas sensíveis, o sistema volta a mostrar fragilidade.
Foi isso que se viu em outros momentos recentes, como em manutenções programadas na ETA 2 e em obras na ETA 3, que exigiram caminhões-pipa, operação especial e apelos para economia de água.
A aposta de Egídio: transformar promessa em entrega
Politicamente, Egídio Ferrari tenta construir a narrativa de que recebeu um sistema defasado, pressionado e sem capacidade de resposta proporcional ao tamanho da cidade. O discurso é claro: o atual colapso não seria obra de um único dia, mas o reflexo de uma dívida estrutural acumulada por várias gestões.
O desafio, porém, é que a população não mede a crise pela engenharia nem pela cronologia administrativa — mede pela torneira seca.
E é justamente aí que está o maior risco político da gestão: não basta anunciar investimentos milionários; será preciso fazer com que a água chegue de forma regular à casa do morador. Porque, em Blumenau, a discussão sobre abastecimento já deixou de ser apenas técnica. Ela virou tema de confiança pública, desgaste político e qualidade de vida.
Mais do que uma obra, Blumenau cobra uma virada de sistema
A crise atual expõe um fato desconfortável: Blumenau não sofre apenas com episódios isolados de falta d’água. O município enfrenta, há anos, um problema de resiliência do sistema.
Quando tudo funciona, a cidade opera.
Quando uma peça falha, um filtro para, a turbidez sobe ou a demanda dispara, o abastecimento entra em tensão.
Por isso, o que está em jogo agora não é apenas concluir uma obra ou trocar uma rede. O que Blumenau cobra é algo maior: uma virada estrutural real, capaz de encerrar um ciclo histórico de improviso, desgaste e escassez recorrente.
Se os investimentos anunciados pela atual gestão vão finalmente entregar essa mudança, a resposta virá menos dos discursos e mais da rotina do cidadão — no teste mais simples e mais decisivo de todos: abrir a torneira e ver a água chegar.


