Cidade acelera preparativos para a maior festa alemã das Américas enquanto reforça ações preventivas contra possíveis impactos climáticos
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| Apresentação do maestro alemão Helmut Högl na 5ª Oktoberfest, em 1988. Foto: Eder Lopez - Grupo Antigamente Blumenau |
Por José Carlos Goes
Blumenau vive mais uma vez um velho dilema da sua própria história: preparar-se para uma possível enchente sem deixar de celebrar a festa que nasceu justamente da superação de grandes tragédias.
Com as notícias sobre a formação do El Niño, cresce a preocupação da população sobre o comportamento do clima nos próximos meses. Ao mesmo tempo, a atual administração municipal mantém, em ritmo acelerado, os preparativos para a edição deste ano da Oktoberfest, principal evento turístico e cultural da cidade.
A postura oficial é clara. A Defesa Civil reconhece que o fenômeno climático está em formação, mas ressalta que ainda não é possível afirmar se haverá uma grande enchente em outubro, mês em que ocorre a festa. Diante desse cenário de incerteza, a Prefeitura aposta na prevenção.
O prefeito Egidio Ferrari anunciou um grande mutirão de limpeza e desassoreamento para o dia 20 de junho, mobilizando poder público e comunidade em uma ação preventiva contra os possíveis efeitos do El Niño.
Essa decisão tem forte significado para quem conhece a história de Blumenau.
Afinal, enchente e Oktoberfest caminham juntas desde a origem da festa.
A Oktoberfest nasceu depois das grandes enchentes de 1983 e 1984, quando a cidade precisava recuperar sua economia, levantar a autoestima da população e mostrar ao Brasil que era possível reconstruir a vida. O que começou como uma resposta à adversidade transformou-se na maior festa alemã das Américas e em um símbolo de resistência.
Em 1990, a cidade voltou a enfrentar um dos seus momentos mais dolorosos.
Fui testemunha da tragédia que atingiu o Bairro Garcia. Uma violenta enxurrada deixou um rastro de destruição e provocou a morte de dezenas de pessoas, marcando para sempre a memória coletiva dos blumenauenses.
Naquele cenário dramático, o então prefeito Victor Fernando Sasse tomou uma das decisões mais difíceis de sua administração: manter a Oktoberfest. A cidade já estava tomada por visitantes e milhares de turistas ainda estavam a caminho de Blumenau.
E foi justamente naquele ambiente de luto que surgiu uma das mais bonitas demonstrações de solidariedade já vistas na história da festa.
O maestro alemão Helmuth Högl, que se apresentava no antigo Pavilhão A da Proeb com sua banda, decidiu transformar sua música em instrumento de ajuda. Os shows passaram a arrecadar recursos para o soerguimento do Garcia e para auxiliar famílias que haviam perdido tudo.
Blumenau viveu, então, um momento raro: a festa e a solidariedade dividiram o mesmo palco.
Helmuth Högl possuía um carisma especial. Comoveu-se profundamente com a tragédia, mas não deixou de cantar. Talvez porque compreendesse que seu talento, naquele instante, tinha um propósito maior: devolver esperança a uma cidade ferida.
A história mostra que Blumenau nunca precisou escolher entre sofrer e recomeçar. Aprendeu a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Em 2023, a Oktoberfest chegou a ser suspensa temporariamente por causa do risco de enchente, numa decisão preventiva das autoridades. A própria administração municipal reconheceu que a segurança da população precisava estar acima de qualquer interesse econômico.
E neste ano? Ainda é uma incógnita.
Todos torcem pelo melhor. Ninguém deseja enfrentar uma enchente. Todos querem viver o alto astral da Oktoberfest, brindar a amizade e celebrar a cultura que ajudou a construir a identidade da cidade.
O futuro ninguém conhece.
O destino, como dizem os antigos, a Deus pertence.
Enquanto isso, Blumenau faz aquilo que aprendeu ao longo da sua história: prepara-se para prevenir desastres e, ao mesmo tempo, organiza a maior festa alemã das Américas.
Porque a Oktoberfest é muito mais do que um evento.
Ela é a prova de que um povo pode cair, levantar-se e voltar a brindar a vida com um belo caneco de chope.
Ein Prosit Blumenau!
