Contrato do Samae de Blumenau tem sobrepreço de R$ 1,1 milhão e gera condenações

Justiça aponta direcionamento de licitação, restrição à concorrência e prejuízo aos cofres públicos em contrato executado entre 2012 e 2018. Decisão ainda cabe recurso

Foto/Divulgação

Um contrato do Samae de Blumenau resultou em condenações de ex-gestores da autarquia, empresários e da empresa contratada após a Justiça identificar irregularidades na licitação e um sobrepreço superior a R$ 1,1 milhão.

Os fatos analisados ocorreram entre 2012 e 2018 e envolvem uma contratação que inicialmente ultrapassava R$ 8 milhões.

Segundo o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), a Justiça concluiu que o processo de contratação apresentou características de direcionamento e condições que reduziram a competitividade entre as empresas interessadas.

Ex-gestores foram condenados

Dois ex-gestores do Samae receberam sanções que incluem suspensão dos direitos políticos, pagamento de multa civil e proibição de contratar com o poder público ou receber benefícios e incentivos fiscais e creditícios.

As penalidades variam entre dois e três anos.

Conforme a sentença, os ex-gestores não participaram da elaboração do edital ou da estruturação inicial da licitação. A Justiça, porém, entendeu que eles contribuíram conscientemente para a manutenção dos efeitos do contrato, inclusive por meio de prorrogações.

O sócio majoritário e administrador da empresa contratada, além da própria empresa, foram condenados ao ressarcimento integral do prejuízo relacionado ao sobrepreço.

Também foram determinadas multa e proibição de contratar com o poder público por cinco anos. Para o empresário, a sentença prevê ainda a suspensão dos direitos políticos pelo mesmo período.

Um segundo sócio-administrador morreu durante o andamento do processo. Por isso, as penalidades de caráter pessoal não podem ser aplicadas. Uma eventual responsabilidade patrimonial dos sucessores deverá ser analisada na fase de cumprimento da sentença e ficará limitada aos bens recebidos por herança.

Licitação sob questionamento

A ação foi ajuizada pela 14ª Promotoria de Justiça da Comarca de Blumenau e analisou desde a estruturação da licitação até a execução do contrato.

A contratação envolvia máquinas e equipamentos utilizados em serviços como abertura de valas, transporte de materiais, lançamento de adutoras, desmonte de rochas e carregamento.

Para o MPSC, uma combinação de exigências teria restringido a concorrência e favorecido uma empresa que já prestava serviços semelhantes.

Entre os pontos questionados estavam a adoção do menor preço global, exigências de qualificação técnica consideradas desproporcionais, necessidade de disponibilidade prévia de equipamentos e pessoal, classificação do objeto como serviço de engenharia e a inabilitação de concorrentes.

A mudança no modelo de contratação adotada pelo Samae em 2012, por si só, não foi considerada irregular. O questionamento concentrou-se na ausência de justificativa técnica considerada suficiente para o novo formato e nas condições impostas aos participantes.

Tribunal de Contas também analisou o caso

O Tribunal de Contas de Santa Catarina (TCE-SC) também analisou a contratação.

Segundo as informações consideradas no processo, o órgão concluiu que não havia uma obra específica a ser executada, mas serviços rotineiros de manutenção das redes de água e esgoto, realizados com máquinas, caminhões, operadores e motoristas.

Contratações anteriores para serviços semelhantes haviam sido realizadas por itens. Para o Ministério Público, não ficou demonstrado que o modelo anterior comprometesse a continuidade ou a eficiência dos serviços.

A adoção do preço global teria reunido diferentes equipamentos e serviços em uma única contratação, com valores superiores aos parâmetros utilizados como referência.

Sobrepreço ultrapassou R$ 1,1 milhão

O processo também apontou aditivos e prorrogações sucessivas, além de problemas relacionados à fiscalização do contrato.

Entre as irregularidades analisadas estavam pagamentos referentes às horas de disponibilidade dos equipamentos e a ausência de mecanismos considerados seguros para verificar a produtividade efetivamente entregue.

Ao final da ação, o Ministério Público calculou em mais de R$ 1,1 milhão o dano material causado pelo sobrepreço.

O valor foi calculado com base nas quantidades previstas no orçamento, nos preços contratados e em parâmetros de referência reconhecidos pelo TCE-SC.

O que diz o Samae

Em nota, o Samae de Blumenau ressaltou que o processo trata de fatos ocorridos entre 2012 e 2018 e envolve dois ex-servidores, dirigentes da empresa e a empresa contratada naquele período.

A autarquia informou que aguarda a notificação oficial da Justiça para adotar as providências necessárias e buscar o recebimento do valor determinado na sentença.

A decisão ainda pode ser contestada por meio de recurso.

José Carlos Goes

Sou locutor. Atuei em várias emissoras de rádio em Blumenau por quatro décadas. Atualmente trabalho na Massa FM de Blumenau e mantenho esse blog. Sou jornalista. Trabalhei em vários jornais impressos. Sou blogueiro.

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